sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A bit of me.

  Eu mostro a língua , falo palavrão, eu te protejo, te faço rir, eu te entendo! Falo um monte de besteira e adoro quando me escutam .Sei amar, sei ser amiga, sei ser de tudo um pouco, e não é através de palavras que expresso o meu amor. Eu digo a verdade nas ações. Eu sou maluca, mas com o tempo você se acostuma ;] tenho um coração enorme, gosto de ajudar. Nunca penso com a razão, sempre com o coração. Eu vivo pra ser feliz e não pra ser normal. Se depender de mim, nunca ficarei plenamente madura,
nem nas idéias nem no estilo, mas sempre verde, imcompleta, experimental. Às vezes eu sou preguiçosa, tenho medo de ser ignorada, me engasgo com minhas próprias palavras, faço desejos, tenho sonhos e quero continuar acreditando que tudo é possível neste mundo pra uma garota normal
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Eu sei, mas não devia



Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

domingo, 24 de outubro de 2010

Momento Reflexão


Roubado da Elaine.


Infância


Eu vivia em pedaços.
Talvez ilhas seja uma palavra melhor. Sempre que eu me arrastava para dentro de mim e olhava em volta, não via um todo. Via um continente cortado e partido, cada seção flutuando sem rumo em algum canto distante do globo.
Lembro do homem que morava lá no trailer. Estava sempre zangado. Sua boca feria meus ouvidos. Diziam que era o diabo engarrafado, mas não creio que se beba maldade.
Havia algo, porém, de que eu realmente gostava: árvores. Elas rodeavam o quintal da pequena casa, cercando-no por todas as partes. No meio dele um balanço de pneu que me distraía no fim da tarde. Podia brincar sem preocupação, sem medo, sem culpa. Sentava e tinha o direito de pensar, ao passo que, com a cabeça erguida, observava meu céu. Minha única certeza...