domingo, 24 de outubro de 2010

Infância


Eu vivia em pedaços.
Talvez ilhas seja uma palavra melhor. Sempre que eu me arrastava para dentro de mim e olhava em volta, não via um todo. Via um continente cortado e partido, cada seção flutuando sem rumo em algum canto distante do globo.
Lembro do homem que morava lá no trailer. Estava sempre zangado. Sua boca feria meus ouvidos. Diziam que era o diabo engarrafado, mas não creio que se beba maldade.
Havia algo, porém, de que eu realmente gostava: árvores. Elas rodeavam o quintal da pequena casa, cercando-no por todas as partes. No meio dele um balanço de pneu que me distraía no fim da tarde. Podia brincar sem preocupação, sem medo, sem culpa. Sentava e tinha o direito de pensar, ao passo que, com a cabeça erguida, observava meu céu. Minha única certeza...

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